quarta-feira, 6 de março de 2013

Cultura...

Literatura, música, oficinas, cinema, lazer... Seja qual for o motivo, vale a pena acompanhar estas páginas

Centro Cultural São Paulo
https://www.facebook.com/CCSPLiteratura
http://www.centrocultural.sp.gov.br/

Espaço público de cultura e convívio, o Centro Cultural São Paulo (da Secretaria Municipal de Cultura) recebe o público em quatro pavimentos de uma área de 46.500 m² localizada entre as ruas Vergueiro e a 23 de maio, e entre as estações Vergueiro e Paraíso do metrô.
Inaugurado em 13 de maio de 1982, a partir da necessidade de uma extensão da Biblioteca Mário de Andrade, transformou-se em um dos primeiros espaços culturais multidisciplinares do país.
O projeto concebido por um grupo de arquitetos coordenado por Eurico Prado Lopes e Luiz Telles deu origem a um espaço caracterizado pela arquitetura do encontro, que atualmente oferece...
... um conjunto de bibliotecas com acervo multidisciplinar de reconhecida relevância, entre elas a Sérgio Milliet, segunda maior biblioteca pública da cidade de São Paulo e a única que é aberta aos domingos e feriados.
... expressivas coleções da cidade de São Paulo - Coleção de Arte da Cidade, Discoteca Oneyda Alvarenga, Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade, Arquivo Multimeios e Coleção Memória do Centro Cultural São Paulo.
... uma programação que pode ser desfrutada gratuitamente ou a preços populares, com espetáculos de teatro, dança e música, séries voltadas à literatura e à poesia, mostras de artes visuais, atividades ligadas aos acervos, projeções de cinema e vídeo, oficinas, debates e palestras.
... jardins com árvores sobreviventes da construção do metrô que estabelecem um contraponto ao visual, à sonoridade e ao ritmo urbanos.
... e a simples e rara oportunidade de parar, estar, criar em um espaço público amplo, vivo, democrático.



Casa das Rosas
https://www.facebook.com/casadasrosas?fref=ts
http://www.casadasrosas-sp.org.br/

Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, é um local de celebração da poesia, da literatura e da arte em geral.Localizada no coração de São Paulo, na Avenida Paulista, 37, a Casa serve de cenário para a efervescência da vida cultural, sendo um espaço onde a arte literalmente acontece. Nosso horário de funcionamento é de terça-feira a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos e feriados, das 10h às 18h.



MASP
https://www.facebook.com/maspmuseu?fref=ts
http://masp.art.br/masp2010/

A missão do MASP é "Incentivar, divulgar e amparar, por todos os meios ao seu alcance, as artes de um modo geral e, em especial, as artes visuais, visando o desenvolvimento e o aprimoramento cultural do povo brasileiro."




Museu da Imagem e do Som
https://www.facebook.com/museudaimagemedosom?fref=ts
http://www.mis-sp.org.br/


A trajetória do Museu da Imagem e do Som refletiu as transformações pelas quais as culturas brasileira e mundial passaram. Atualmente, quando a tecnologia se alia à sensibilidade humana na criação artística, e as instituições se adequam às demandas sociais, o MIS se afirma como espaço que coloca em diálogo vivo memória e contemporaneidade, investigação técnica e ampliação do acesso às inovações da arte.
Em 2011, o MIS recebeu um novo plano de atividades sob a gestão de André Sturm. Assim, frente a todo o seu valor histórico e cultural na cidade de São Paulo, o museu passa a ser um espaço de encontro para população paulista, onde a pluralidade na programação artística e a efervescência cultural prevalecem. Este MIS, que tem suas atividades garantidas por uma parceria público-privada gerenciada pela Organização Social de Cultura Paço das Artes, passou, então, a atuar baseado em áreas pensadas para agir de forma coordenada e complementar.
Museu da Língua Portuguesa


O Museu da Língua Portuguesa, dedicado à valorização e difusão do nosso idioma (patrimônio imaterial), apresenta uma forma expositiva diferenciada das demais instituições museológicas do país e do mundo, usando tecnologia de ponta e recursos interativos para a apresentação de seus conteúdos.

Os principais objetivos do Museu da Língua Portuguesa são:
- mostrar a língua como elemento fundamental e fundador da nossa cultura;
- celebrar e valorizar a Língua Portuguesa, apresentada suas origens, história e influências sofridas;
- aproximar o cidadão usuário de seu idioma, mostrando que ele é o verdadeiro “proprietário” e agente modificador da Língua Portuguesa;
- valorizar a diversidade da Cultura Brasileira;
- favorecer o intercâmbio entre os diversos países de Língua Portuguesa;
- promover cursos, palestras e seminários sobre a Língua Portuguesa e temas pertinentes;
- realizar exposições temporárias sobre temas relacionadas à Língua Portuguesa e suas diversas áreas de influência.

Pinacoteca do Estado de São Paulo
http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca-pt/


A Pinacoteca do Estado é um museu de artes visuais, com ênfase na produção brasileira do século XIX até a contemporaneidade, pertencente à Secretaria de Estado da Cultura. Fundada em 1905 pelo Governo do Estado de São Paulo, é o museu de arte mais antigo da cidade. Está instalada no antigo edifício do Liceu de Artes e Ofícios, projetado no final do século XIX pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, que sofreu uma ampla reforma com projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, no final da década de 1990.

O acervo original da Pinacoteca foi formado com a transferência, do então Museu do Estado, hoje Museu Paulista da Universidade de São Paulo, de 26 obras de importantes artistas que atuaram na cidade como Almeida Júnior, Pedro Alexandrino, Antonio Parreiras e Oscar Pereira da Silva. Atravessou seu primeiro século de atividades acumulando realizações e formou um significativo acervo, hoje com cerca de nove mil obras. Passou por uma marcante transformação assumindo-se, gradativamente, como um museu de arte contemporânea, comprometido com a produção de seu tempo, com destacada presença no cenário artístico do País. 




Museu da Imigração do Estado de São Paulo
https://www.facebook.com/MuseudaImigracao
http://www.memorialdoimigrante.org.br/

O Museu da Imigração, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, está em processo de restauro das edificações. Durante o período de obras, visando garantir a segurança do acervo e a continuidade dos serviços públicos prestados (emissão de certidões e atestados), os acervos da instituição foram transferidos temporariamente para outras instalações.

Além da obra de restauro, um novo projeto museológico – mesclando recursos interativos e multimidiáticos com o rico acervo físico e documental da instituição – será implantado. Os projetos, definidos pela Secretaria de Estado da Cultura, serão realizados em parceria com a Associação dos Amigos do Museu do Café que, depois de chamada pública, foi selecionada como organização social de cultura responsável pelo gerenciamento da instituição.




segunda-feira, 4 de março de 2013

Trovadorismo



O Trovadorismo é considerada a primeira escola literária portuguesa,  ocorreu entre os séculos XII a XIV. Neste período, Portugal se firmava como reino independente separando-se da Galiza ou Galícia.
O período histórico em que se desenvolveu o Trovadorismo é chamado feudalismo (sistema de organização social e político baseado nas relações servo-contratuais). Neste sistema, os senhores feudais conseguiam as terras – que lhes eram dadas pelo rei -  e colocavam  os camponeses para cuidar dos feudos. Em troca, os camponeses recebiam o direito a uma gleba de terra para morar, além da proteção contra ataques bárbaros. Quando os servos iam para o manso senhorial, atravessando a ponte, tinham que pagar um pedágio, exceto quando para lá se dirigiam a fim de cuidar das terras do Senhor Feudal.
Toda a produção literária do Trovadorismo foi desenvolvida em galego-português, língua que mais tarde daria origem ao português.
A base da produção literária trovadoresca foram as cantigas, que eram  transmitidas oralmente. Isto facilitava a transmissão de informações, visto que a maior parte da população não tinha acesso a educação (centralizada nas mãos do clero e da nobreza).

Curiosidade:
O processo de educação na Idade Média era de total responsabilidade da Igreja. As escolas funcionavam anexas às catedrais ou às escolas monásticas, muitas funcionavam nos mosteiros. A Igreja foi um instrumento essencial no processo da educação na Idade Média, a grande disseminadora do conhecimento.
Para acontecer o ensino precisava-se de uma autorização, essa era cedida pelos bispos e pelos diretores das escolas eclesiásticas que, com medo de perderem a influência, dificultavam ao máximo essa concessão. Reagindo contra essas limitações, professores e alunos organizaram-se em associações denominadas universitas, que mais tarde originou a palavra universidades. As universidades eram compostas por quatro divisões ou faculdades. A faculdade de Artes era o lugar onde a educação acontecia de forma mais geral, as faculdades de Direito, Medicina e Teologia trabalhavam o conhecimento de forma mais específica. Os diretores das faculdades eram chamados de decanos e eleitos pelos professores; o decano da Faculdade de Artes era o reitor e representava oficialmente a universidade.
Os cursos oferecidos eram em latim e com isso exigia-se do estudante muito empenho e dedicação. O estudo das sete artes liberais era dividido em dois ciclos: o trivium e o quadrivium. O primeiro compreendia a gramática, a retórica e a lógica; o segundo compunha-se do estudo da aritmética, geografia, astronomia e música. Conforme o grau de afinidade, distribuíam-se então os estudantes pelos cursos de Direito, Medicina e Teologia. Os estudantes viviam em um ritmo frenético e as calorosas discussões com a população eram rotineiras. De uma forma geral os estudantes eram de origem humilde e muitos viviam internos em colégios ou internatos que contavam com rígidas formas disciplinadoras estudantis. Com o tempo esses colégios passaram a constituir campos de estudos autônomos, sendo que alguns deles ainda existem, e são renomados mundialmente, como os de Oxford, Cambridge e o de Sorbonne, fundado em 1257 por Rogério de Sorbon, na França.


O marco inicial do Trovadorismo é a Cantiga da Ribeirinha (1189 ou 1198) de Paio Soares Taveirós.

No mundo nom me sei parelha,
 mentre me for' como me vai, 
ca ja moiro por vos - e ai 
mia senhor branca e vermelha, 
queredes que vos retraia 
quando vos eu vi em saia! 

Mao dia que me levantei, que vos enton nom vi fea! "
"E, mia senhor, des aquel di' , ai!  
me foi a mim muin mal, 
e vós, filha de don Paai
Moniz, e ben vos semelha 
d'aver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d'alfaia 
nunca de vós ouve nem ei 
valia d'ua correa". 

No mundo ninguém se assemelha a mim
enquanto a minha vida continuar como vai
porque morro por ti e ai
minha senhora de pele alva e faces rosadas,
quereis que eu vos descreva (retrate) 
quanto eu vos vi sem manto (saia : roupa íntima)  

Maldito dia! me levantei
que não vos vi feia (ou seja, viu a mais bela). 
E, minha senhora, desde aquele dia, ai
tudo me foi muito mal / e vós, filha de don Pai
Moniz, e bem vos parece
de ter eu por vós guarvaia (guarvaia: roupas luxuosas)
pois eu, minha senhora, como mimo (ou prova de amor)
de vós nunca recebi algo, mesmo que sem valor.


As cantigas trovadorescas são divididas da seguinte forma:





 Cantiga de Amor

               "A dona que eu am'e tenho por Senhor
amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte."
  • Eu lírico masculino
  • Assunto Principal: o sofrimento amoroso do eu-lírico perante uma mulher idealizada e distante.
  • Amor cortês; vassalagem amorosa.
  • Amor impossível.
  • Ambientação aristocrática das cortes.
  • Forte influência provençal.
  • Vassalagem amorosa "o eu lírico usa o pronome de tratamento "senhor".


Cantiga de Amigo


"Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado!
ai Deus, e u é?"
(...)
  • Eu lírico feminino.
  • Presença de paralelismos.
  • Predomínio da musicalidade.
  • Assunto Principal: o lamento da moça cujo namorado partiu.
  • Amor natural e espontâneo.
  • Amor possível.
  • Ambientação popular rural ou urbana.
  • Influência da tradição oral ibérica.
  • Deus é o elemento mais importante do poema.
  • Pouca subjetividade.

Cantiga de Escárnio 

Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv[o] em meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia! (...)
  • Crítica indireta; normalmente a pessoa satirizada não é identificada.
  • Linguagem trabalhada, cheia de sutilezas, trocadilho e ambiguidades
  • Ironia


Cantiga de Maldizer

"Ai dona fea! Foste-vos queixar
Que vos nunca louv'en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei toda via;
E vedes como vos quero loar:
Dona fea, velha e sandia!
Ai dona fea! Se Deus mi pardon!
E pois havedes tan gran coraçon
Que vos eu loe en esta razon,
Vos quero já loar toda via;
E vedes qual será a loaçon:
Dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pero muito trobei;
Mais ora já en bom cantar farei
En que vos loarei toda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!"



  • Crítica direta; geralmente a pessoa satirizada é identificada
  • Linguagem agressiva, direta, por vezes obscena
  • Zombaria
  • Linguagem Culta



  • domingo, 3 de março de 2013

    I-Juca Pirama - Romantismo


    Considerado pelos críticos um dos poemas mais elaborados do romantismo e, por muitos, a obra-prima de Gonçalves Dias, I-Juca Pirama relata a história do último guerreiro vivo da tribo tupi que é capturado pelos Timbiras, tribo antropófaga (que pratica o canibalismo) e que, por ser bravo e corajoso, deve ter sua carne comida em uma cerimônia religiosa.

    Antes dos sacrifícios, o chefe Timbira propõe ao guerreiro que cante suas façanhas para que os bravos Timbiras tenham maior gosto em sacrificá-lo. No entanto, o que se segue é um pedido de clemência em virtude de ser o último sobrevivente da sua tribo e ter ainda a responsabilidade de cuidar do pai, velho e cego. Depois do seu triste canto, os Timbiras se recusam a sacrificá-lo e então, o jovem parte triste e envergonhado com a recusa. 

    Quando chega para junto de seu pai, este percebe que o filho está com cheiro da tinta que é utilizada para ungir quem será sacrificado e, interessado na bravura do filho, o velho pai quer saber como ele conseguiu fugir. Ao descobrir que o filho não terminou o ritual, nem matou os seus agressores, decide que devem ir à tribo terminar o ritual. Na tribo Timbira, o velho Tupi descobre que o filho na verdade havia chorado em presença da morte e amaldiçoa o próprio filho, praguejando uma sequência de desgraças, acusando-o de manchar a honra e o nome na raça Tupi. 

    O filho, não podendo suportar o ódio do pai, se enche de valentia e num súbito ato, declara ataque a toda a tribo Timbira. O cego reconhece o brado do filho, e ouvindo os barulhos do embate, entendeu que o filho lutava com bravura.  A confusão acabou quando o chefe Timbira gritou:

    "— Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, — E para o sacrifício é mister forças." 


    O título do poema é tirado da língua tupi e significa, conforme explica o próprio autor, “o que há de ser morto, e que é digno de ser morto”, portanto "I-Juca Pirama” não tem nada a ver com o nome do índio aprisionado pelos Timbiras. 

    Predomina no poema o gênero lírico – um lirismo fácil e espontâneo. Como é próprio do romantismo, é um lirismo que brota do coração e da “imaginação criadora” do poeta e que expressa bem o sentimentalismo romântico. A obra é indianista e vale ressaltar a musicalidade dos versos que é uma característica típica de Gonçalves Dias. 

    No poema temos uma visão do índio ligado aos seus costumes, idealizado e moldado ao gosto romântico. O índio integrado no ambiente natural e, principalmente, adequado a um sentimento de honra, reflete o pensamento ocidental, típico das novelas de cavalaria medievais - é o caso do texto Rei Arthur e a Távola Redonda. Se os europeus podiam encontrar na Idade Média as origens da nacionalidade, o mesmo não aconteceu com os brasileiros. Provavelmente por essa razão, a volta ao passado, mesclada ao culto do bom selvagem, encontra na figura do indígena o símbolo exato e adequada para a realização da pesquisa lírica e heroica do passado. 



    I-Juca Pirama

    No meio das tabas de amenos verdores,
    Cercadas de troncos - cobertos de flores,
    Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
    São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
    Temíveis na guerra, que em densas coortes
    Assombram das matas a imensa extensão.
    São rudos, severos, sedentos de glória,
    Já prélios incitam, já cantam vitória,
    Já meigos atendem à voz do cantor:
    São todos Timbiras, guerreiros valentes!
    Seu nome lá voa na boca das gentes,
    Condão de prodígios, de glória e terror!
    As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
    As armas quebrando, lançando-as ao rio,
    O incenso aspiraram dos seus maracás:
    Medrosos das guerras que os fortes acendem,
    Custosos tributos ignavos lá rendem,
    Aos duros guerreiros sujeitos na paz.
    No centro da taba se estende um terreiro,
    Onde ora se aduna o concílio guerreiro
    Da tribo senhora, das tribos servis:
    Os velhos sentados praticam d’outrora,
    E os moços inquietos, que a festa enamora,
    Derramam-se em torno dum índio infeliz.
    Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,
    Sua tribo não diz: - de um povo remoto
    Descende por certo - dum povo gentil;
    Assim lá na Grécia ao escravo insulano
    Tornavam distinto do vil muçulmano
    As linhas corretas do nobre perfil.
    Por casos de guerra caiu prisioneiro
    Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro
    Assola-se o teto, que o teve em prisão;
    Convidam-se as tribos dos seus arredores,
    Cuidosos se incubem do vaso das cores,
    Dos vários aprestos da honrosa função.
    Acerva-se a lenha da vasta fogueira
    Entesa-se a corda da embira ligeira,
    Adorna-se a maça com penas gentis:
    A custo, entre as vagas do povo da aldeia
    Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
    Garboso nas plumas de vário matiz.
    Em tanto as mulheres com leda trigança,
    Afeitas ao rito da bárbara usança,
    índio já querem cativo acabar:
    A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
    Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
    Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,

    II

    Em fundos vasos d’alvacenta argila
    Ferve o cauim;
    Enchem-se as copas, o prazer começa,
    Reina o festim.
    O prisioneiro, cuja morte anseiam,
    Sentado está,
    O prisioneiro, que outro sol no ocaso
    Jamais verá!
    A dura corda, que lhe enlaça o colo,
    Mostra-lhe o fim
    Da vida escura, que será mais breve
    Do que o festim!
    Contudo os olhos d’ignóbil pranto
    Secos estão;
    Mudos os lábios não descerram queixas
    Do coração.
    Mas um martírio, que encobrir não pode,
    Em rugas faz
    A mentirosa placidez do rosto
    Na fronte audaz!
    Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
    No passo horrendo?
    Honra das tabas que nascer te viram,
    Folga morrendo.
    Folga morrendo; porque além dos Andes
    Revive o forte,
    Que soube ufano contrastar os medos
    Da fria morte.
    Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,
    Lá murcha e pende:
    Somente ao tronco, que devassa os ares,
    O raio ofende!
    Que foi? Tupã mandou que ele caísse,
    Como viveu;
    E o caçador que o avistou prostrado
    Esmoreceu!
    Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes
    Revive o forte,
    Que soube ufano contrastar os medos
    Da fria morte.

    III

    Em larga roda de novéis guerreiros
    Ledo caminha o festival Timbira,
    A quem do sacrifício cabe as honras,
    Na fronte o canitar sacode em ondas,
    O enduape na cinta se embalança,
    Na destra mão sopesa a iverapeme,
    Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo
    Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra,
    Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
    Como que por feitiço não sabido
    Encantadas ali as almas grandes
    Dos vencidos Tapuias, inda chorem
    Serem glória e brasão d’imigos feros.
    "Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro;
    "Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
    "As nossas matas devassaste ousado,
    "Morrerás morte vil da mão de um forte."
    Vem a terreiro o mísero contrário;
    Do colo à cinta a muçurana desce:
    "Dize-nos quem és, teus feitos canta,
    "Ou se mais te apraz, defende-te." Começa
    O índio, que ao redor derrama os olhos,
    Com triste voz que os ânimos comove.

    IV

    Meu canto de morte,
    Guerreiros, ouvi:
    Sou filho das selvas,
    Nas selvas cresci;
    Guerreiros, descendo
    Da tribo tupi.
    Da tribo pujante,
    Que agora anda errante
    Por fado inconstante,
    Guerreiros, nasci;
    Sou bravo, sou forte,
    Sou filho do Norte;
    Meu canto de morte,
    Guerreiros, ouvi.
    Já vi cruas brigas,
    De tribos imigas,
    E as duras fadigas
    Da guerra provei;
    Nas ondas mendaces
    Senti pelas faces
    Os silvos fugaces
    Dos ventos que amei.
    Andei longes terras
    Lidei cruas guerras,
    Vaguei pelas serras
    Dos vis Aimoréis;
    Vi lutas de bravos,
    Vi fortes - escravos!
    De estranhos ignavos
    Calcados aos pés.
    E os campos talados,
    E os arcos quebrados,
    E os piagas coitados
    Já sem maracás;
    E os meigos cantores,
    Servindo a senhores,
    Que vinham traidores,
    Com mostras de paz.
    Aos golpes do imigo,
    Meu último amigo,
    Sem lar, sem abrigo
    Caiu junto a mi!
    Com plácido rosto,
    Sereno e composto,
    O acerbo desgosto
    Comigo sofri.
    Meu pai a meu lado
    Já cego e quebrado,
    De penas ralado,
    Firmava-se em mi:
    Nós ambos, mesquinhos,
    Por ínvios caminhos,
    Cobertos d’espinhos
    Chegamos aqui!
    O velho no entanto
    Sofrendo já tanto
    De fome e quebranto,
    Só qu’ria morrer!
    Não mais me contenho,
    Nas matas me embrenho,
    Das frechas que tenho
    Me quero valer.
    Então, forasteiro,
    Caí prisioneiro
    De um troço guerreiro
    Com que me encontrei:
    O cru dessossêgo
    Do pai fraco e cego,
    Enquanto não chego
    Qual seja, - dizei!
    Eu era o seu guia
    Na noite sombria,
    A só alegria
    Que Deus lhe deixou:
    Em mim se apoiava,
    Em mim se firmava,
    Em mim descansava,
    Que filho lhe sou.
    Ao velho coitado
    De penas ralado,
    Já cego e quebrado,
    Que resta? - Morrer.
    Enquanto descreve
    O giro tão breve
    Da vida que teve,
    Deixai-me viver!
    Não vil, não ignavo,
    Mas forte, mas bravo,
    Serei vosso escravo:
    Aqui virei ter.
    Guerreiros, não coro
    Do pranto que choro:
    Se a vida deploro,
    Também sei morrer.

    V

    Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;
    Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
    Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
    Brada segunda vez com voz mais alta,
    Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
    A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
    Timbira, diz o índio enternecido,
    Solto apenas dos nós que o seguravam:
    És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
    Tu que assim do meu mal te comoveste,
    Nem sofres que, transposta a natureza,
    Com olhos onde a luz já não cintila,
    Chore a morte do filho o pai cansado,
    Que somente por seu na voz conhece.
    - És livre; parte.
    - E voltarei.
    - Debalde.
    - Sim, voltarei, morto meu pai.
    - Não voltes!
    É bem feliz, se existe, em que não veja,
    Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
    - Acaso tu supões que me acobardo,
    Que receio morrer!
    - És livre; parte!
    - Ora não partirei; quero provar-te
    Que um filho dos Tupis vive com honra,
    E com honra maior, se acaso o vencem,
    Da morte o passo glorioso afronta.
    - Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
    E tu choraste!... parte; não queremos
    Com carne vil enfraquecer os fortes.
    Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas
    O rebater do coração se ouvia
    Precípite. - Do rosto afogueado
    Gélidas bagas de suor corriam:
    Talvez que o assaltava um pensamento...
    Já não... que na enlutada fantasia,
    Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
    Do velho pai a moribunda imagem
    Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato!
    Curvado o colo, taciturno e frio.
    Espectro d’homem, penetrou no bosque!

    VI

    - Filho meu, onde estás?
    - Ao vosso lado;
    Aqui vos trago provisões; tomai-as,
    As vossas forças restaurai perdidas,
    E a caminho, e já!
    - Tardaste muito!
    Não era nado o sol, quando partiste,
    E frouxo o seu calor já sinto agora!
    - Sim demorei-me a divagar sem rumo,
    Perdi-me nestas matas intrincadas,
    Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
    Convém partir, e já!
    - Que novos males
    Nos resta de sofrer? - que novas dores,
    Que outro fado pior Tupã nos guarda?
    - As setas da aflição já se esgotaram,
    Nem para novo golpe espaço intacto
    Em nossos corpos resta.
    - Mas tu tremes!
    - Talvez do afã da caça....
    - Oh filho caro!
    Um quê misterioso aqui me fala,
    Aqui no coração; piedosa fraude
    Será por certo, que não mentes nunca!
    Não conheces temor, e agora temes?
    Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
    E contra o seu querer não valem brios.
    Partamos!... -
    E com mão trêmula, incerta
    Procura o filho, tacteando as trevas
    Da sua noite lúgubre e medonha.
    Sentindo o acre odor das frescas tintas,
    Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente...
    Do filho os membros gélidos apalpa,
    E a dolorosa maciez das plumas
    Conhece estremecendo: - foge, volta,
    Encontra sob as mãos o duro crânio,
    Despido então do natural ornato!...
    Recua aflito e pávido, cobrindo
    Às mãos ambas os olhos fulminados,
    Como que teme ainda o triste velho
    De ver, não mais cruel, porém mais clara,
    Daquele exício grande a imagem viva
    Ante os olhos do corpo afigurada.
    Não era que a verdade conhecesse
    Inteira e tão cruel qual tinha sido;
    Mas que funesto azar correra o filho,
    Ele o via; ele o tinha ali presente;
    E era de repetir-se a cada instante.
    A dor passada, a previsão futura
    E o presente tão negro, ali os tinha;
    Ali no coração se concentrava,
    Era num ponto só, mas era a morte!
    - Tu prisioneiro, tu?
    - Vós o dissestes.
    - Dos índios?
    - Sim.
    - De que nação?
    - Timbiras.
    - E a muçurana funeral rompeste,
    Dos falsos manitôs quebrastes maça...
    - Nada fiz... aqui estou.
    - Nada! -
    Emudecem;
    Curto instante depois prossegue o velho:
    - Tu és valente, bem o sei; confessa,
    Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!
    - Nada fiz; mas souberam da existência
    De um pobre velho, que em mim só vivia....
    - E depois?...
    - Eis-me aqui.
    - Fica essa taba?
    - Na direção do sol, quando transmonta.
    - Longe?
    - Não muito.
    - Tens razão: partamos.
    - E quereis ir?...
    - Na direção do acaso.

    VII

    "Por amor de um triste velho,
    Que ao termo fatal já chega,
    Vós, guerreiros, concedestes
    A vida a um prisioneiro.
    Ação tão nobre vos honra,
    Nem tão alta cortesia
    Vi eu jamais praticada
    Entre os Tupis, - e mas foram
    Senhores em gentileza.
    "Eu porém nunca vencido,
    Nem nos combates por armas,
    Nem por nobreza nos atos;
    Aqui venho, e o filho trago.
    Vós o dizeis prisioneiro,
    Seja assim como dizeis;
    Mandai vir a lenha, o fogo,
    A maça do sacrifício
    E a muçurana ligeira:
    Em tudo o rito se cumpra!
    E quando eu for só na terra,
    Certo acharei entre os vossos,
    Que tão gentis se revelam,
    Alguém que meus passos guie;
    Alguém, que vendo o meu peito
    Coberto de cicatrizes,
    Tomando a vez de meu filho,
    De haver-me por se ufane!"
    Mas o chefe dos Timbiras,
    Os sobrolhos encrespando,
    Ao velho Tupi guerreiro
    Responde com tôrvo acento:
    - Nada farei do que dizes:
    É teu filho imbele e fraco!
    Aviltaria o triunfo
    Da mais guerreira das tribos
    Derramar seu ignóbil sangue:
    Ele chorou de cobarde;
    Nós outros, fortes Timbiras,
    Só de heróis fazemos pasto. -
    Do velho Tupi guerreiro
    A surda voz na garganta
    Faz ouvir uns sons confusos,
    Como os rugidos de um tigre,
    Que pouco a pouco se assanha!

    VIII

    "Tu choraste em presença da morte?
    Na presença de estranhos choraste?
    Não descende o cobarde do forte;
    Pois choraste, meu filho não és!
    Possas tu, descendente maldito
    De uma tribo de nobres guerreiros,
    Implorando cruéis forasteiros,
    Seres presa de via Aimorés.
    "Possas tu, isolado na terra,
    Sem arrimo e sem pátria vagando,
    Rejeitado da morte na guerra,
    Rejeitado dos homens na paz,
    Ser das gentes o espectro execrado;
    Não encontres amor nas mulheres,
    Teus amigos, se amigos tiveres,
    Tenham alma inconstante e falaz!
    "Não encontres doçura no dia,
    Nem as cores da aurora te ameiguem,
    E entre as larvas da noite sombria
    Nunca possas descanso gozar:
    Não encontres um tronco, uma pedra,
    Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
    Padecendo os maiores tormentos,
    Onde possas a fronte pousar.
    "Que a teus passos a relva se torre;
    Murchem prados, a flor desfaleça,
    E o regato que límpido corre,
    Mais te acenda o vesano furor;
    Suas águas depressa se tornem,
    Ao contacto dos lábios sedentos,
    Lago impuro de vermes nojentos,
    Donde fujas com asco e terror!
    "Sempre o céu, como um teto incendido,
    Creste e punja teus membros malditos
    E oceano de pó denegrido
    Seja a terra ao ignavo tupi!
    Miserável, faminto, sedento,
    Manitôs lhe não falem nos sonhos,
    E do horror os espectros medonhos
    Traga sempre o cobarde após si.
    "Um amigo não tenhas piedoso
    Que o teu corpo na terra embalsame,
    Pondo em vaso d’argila cuidoso
    Arco e frecha e tacape a teus pés!
    Sê maldito, e sozinho na terra;
    Pois que a tanta vileza chegaste,
    Que em presença da morte choraste,
    Tu, cobarde, meu filho não és."

    IX

    Isto dizendo, o miserando velho
    A quem Tupã tamanha dor, tal fado
    Já nos confins da vida reservada,
    Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
    Da sua noite escura as densas trevas
    Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára!
    O grito que escutou é voz do filho,
    Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
    Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma!
    - Esse momento só vale a pagar-lhe
    Os tão compridos trances, as angústias,
    Que o frio coração lhe atormentaram
    De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.
    Ele que em tanta dor se contivera,
    Tomado pelo súbito contraste,
    Desfaz-se agora em pranto copioso,
    Que o exaurido coração remoça.
    A taba se alborota, os golpes descem,
    Gritos, imprecações profundas soam,
    Emaranhada a multidão braveja,
    Revolve-se, enovela-se confusa,
    E mais revolta em mor furor se acende.
    E os sons dos golpes que incessantes fervem,
    Vozes, gemidos, estertor de morte
    Vão longe pelas ermas serranias
    Da humana tempestade propagando
    Quantas vagas de povo enfurecido
    Contra um rochedo vivo se quebravam.
    Era ele, o Tupi; nem fora justo
    Que a fama dos Tupis - o nome, a glória,
    Aturado labor de tantos anos,
    Derradeiro brasão da raça extinta,
    De um jacto e por um só se aniquilasse.
    - Basta! Clama o chefe dos Timbiras,
    - Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste,
    E para o sacrifício é mister forças. -
    O guerreiro parou, caiu nos braços
    Do velho pai, que o cinge contra o peito,
    Com lágrimas de júbilo bradando:
    "Este, sim, que é meu filho muito amado!
    "E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
    "Corram livres as lágrimas que choro,
    "Estas lágrimas, sim, que não desonram."

    X

    Um velho Timbira, coberto de glória,
    Guardou a memória
    Do moço guerreiro, do velho Tupi!
    E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
    Do que ele contava,
    Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!
    "Eu vi o brioso no largo terreiro
    Cantar prisioneiro
    Seu canto de morte, que nunca esqueci:
    Valente, como era, chorou sem ter pejo;
    Parece que o vejo,
    Que o tenho nest’hora diante de mi.
    "Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!
    Pois não, era um bravo;
    Valente e brioso, como ele, não vi!
    E à fé que vos digo: parece-me encanto
    Que quem chorou tanto,
    Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"
    Assim o Timbira, coberto de glória,
    Guardava a memória
    Do moço guerreiro, do velho Tupi.
    E à noite nas tabas, se alguém duvidava
    Do que ele contava,
    Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".
    FIM

    Navio Negreiro - Romantismo

    Navio Negreiro é considerado um dos poemas mais significativos do romantismo brasileiro. Enquanto outros poetas do período tomam a figura do índio como herói, Castro Alves usa a figura do negro, considerado socialmente inferior.

    O poema descreve a terrível situação dos africanos, arrancados de suas terras, separados de suas famílias e tratados como animais nos navios que os traziam para ser escravizados. Foi escrito em 1869, quase vinte anos depois da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de escravos, mas somente em 1888 (quase quarenta anos depois), a Lei Áurea deu fim ao regime escravista brasileiro.


    Composto de seis partes, o autor alterna as métricas do poema para obter o ritmo mais adequado a cada situação retratada.

    A temática social abordada por Castro Alves, difere por completo dos tópicos recorrentes na fase do Ultra-Romantismo ou "Mal do Século", representados por poemas que abordam, num universo de pessimismo e angústia.







    Navio Negreiro
    Castro Alves

      I
    'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
    Brinca o luar — dourada borboleta;
    E as vagas após ele correm... cansam
    Como turba de infantes inquieta. 
    'Stamos em pleno mar... Do firmamento
    Os astros saltam como espumas de ouro...
    O mar em troca acende as ardentias,
    — Constelações do líquido tesouro... 
    'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
    Ali se estreitam num abraço insano,
    Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
    Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 
    'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
    Ao quente arfar das virações marinhas,
    Veleiro brigue corre à flor dos mares,
    Como roçam na vaga as andorinhas... 
    Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
    Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
    Neste saara os corcéis o pó levantam,
    Galopam, voam, mas não deixam traço. 
    Bem feliz quem ali pode nest'hora
    Sentir deste painel a majestade!
    Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
    E no mar e no céu — a imensidade! 
    Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
    Que música suave ao longe soa!
    Meu Deus! como é sublime um canto ardente
    Pelas vagas sem fim boiando à toa! 
    Homens do mar! ó rudes marinheiros,
    Tostados pelo sol dos quatro mundos!
    Crianças que a procela acalentara
    No berço destes pélagos profundos! 
    Esperai! esperai! deixai que eu beba
    Esta selvagem, livre poesia
    Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
    E o vento, que nas cordas assobia...
    .......................................................... 
    Por que foges assim, barco ligeiro?
    Por que foges do pávido poeta?
    Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
    Que semelha no mar — doudo cometa! 
    Albatroz!  Albatroz! águia do oceano,
    Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
    Sacode as penas, Leviathan do espaço,
    Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas.
     
    II
        
    Que importa do nauta o berço,
    Donde é filho, qual seu lar?
    Ama a cadência do verso
    Que lhe ensina o velho mar!
    Cantai! que a morte é divina!
    Resvala o brigue à bolina
    Como golfinho veloz.
    Presa ao mastro da mezena
    Saudosa bandeira acena
    As vagas que deixa após. 
    Do Espanhol as cantilenas
    Requebradas de langor,
    Lembram as moças morenas,
    As andaluzas em flor!
    Da Itália o filho indolente
    Canta Veneza dormente,
    — Terra de amor e traição,
    Ou do golfo no regaço
    Relembra os versos de Tasso,
    Junto às lavas do vulcão! 
    O Inglês — marinheiro frio,
    Que ao nascer no mar se achou,
    (Porque a Inglaterra é um navio,
    Que Deus na Mancha ancorou),
    Rijo entoa pátrias glórias,
    Lembrando, orgulhoso, histórias
    De Nelson e de Aboukir.. .
    O Francês — predestinado —
    Canta os louros do passado
    E os loureiros do porvir! 
    Os marinheiros Helenos,
    Que a vaga jônia criou,
    Belos piratas morenos
    Do mar que Ulisses cortou,
    Homens que Fídias talhara,
    Vão cantando em noite clara
    Versos que Homero gemeu ...
    Nautas de todas as plagas,
    Vós sabeis achar nas vagas
    As melodias do céu! ...
     
    III
      
    Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
    Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
    Como o teu mergulhar no brigue voador!
    Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
    É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
    Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
     
    IV
       
    Era um sonho dantesco... o tombadilho
    Que das luzernas avermelha o brilho.
    Em sangue a se banhar.
    Tinir de ferros... estalar de açoite...
    Legiões de homens negros como a noite,
    Horrendos a dançar... 
    Negras mulheres, suspendendo às tetas
    Magras crianças, cujas bocas pretas
    Rega o sangue das mães:
    Outras moças, mas nuas e espantadas,
    No turbilhão de espectros arrastadas,
    Em ânsia e mágoa vãs! 
    E ri-se a orquestra irônica, estridente...
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais ...
    Se o velho arqueja, se no chão resvala,
    Ouvem-se gritos... o chicote estala.
    E voam mais e mais... 
    Presa nos elos de uma só cadeia,
    A multidão faminta cambaleia,
    E chora e dança ali!
    Um de raiva delira, outro enlouquece,
    Outro, que martírios embrutece,
    Cantando, geme e ri! 
    No entanto o capitão manda a manobra,
    E após fitando o céu que se desdobra,
    Tão puro sobre o mar,
    Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
    "Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
    Fazei-os mais dançar!..." 
    E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
    E da ronda fantástica a serpente
              Faz doudas espirais...
    Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
    Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
              E ri-se Satanás!...
     
    V
      
    Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus!
    Se é loucura... se é verdade
    Tanto horror perante os céus?!
    Ó mar, por que não apagas
    Co'a esponja de tuas vagas
    De teu manto este borrão?...
    Astros! noites! tempestades!
    Rolai das imensidades!
    Varrei os mares, tufão! 
    Quem são estes desgraçados
    Que não encontram em vós
    Mais que o rir calmo da turba
    Que excita a fúria do algoz?
    Quem são?   Se a estrela se cala,
    Se a vaga à pressa resvala
    Como um cúmplice fugaz,
    Perante a noite confusa...
    Dize-o tu, severa Musa,
    Musa libérrima, audaz!... 
    São os filhos do deserto,
    Onde a terra esposa a luz.
    Onde vive em campo aberto
    A tribo dos homens nus...
    São os guerreiros ousados
    Que com os tigres mosqueados
    Combatem na solidão.
    Ontem simples, fortes, bravos.
    Hoje míseros escravos,
    Sem luz, sem ar, sem razão. . . 
    São mulheres desgraçadas,
    Como Agar o foi também.
    Que sedentas, alquebradas,
    De longe... bem longe vêm...
    Trazendo com tíbios passos,
    Filhos e algemas nos braços,
    N'alma — lágrimas e fel...
    Como Agar sofrendo tanto,
    Que nem o leite de pranto
    Têm que dar para Ismael. 
    Lá nas areias infindas,
    Das palmeiras no país,
    Nasceram crianças lindas,
    Viveram moças gentis...
    Passa um dia a caravana,
    Quando a virgem na cabana
    Cisma da noite nos véus ...
    ... Adeus, ó choça do monte,
    ... Adeus, palmeiras da fonte!...
    ... Adeus, amores... adeus!... 
    Depois, o areal extenso...
    Depois, o oceano de pó.
    Depois no horizonte imenso
    Desertos... desertos só...
    E a fome, o cansaço, a sede...
    Ai! quanto infeliz que cede,
    E cai p'ra não mais s'erguer!...
    Vaga um lugar na cadeia,
    Mas o chacal sobre a areia
    Acha um corpo que roer. 
    Ontem a Serra Leoa,
    A guerra, a caça ao leão,
    O sono dormido à toa
    Sob as tendas d'amplidão!
    Hoje... o porão negro, fundo,
    Infecto, apertado, imundo,
    Tendo a peste por jaguar...
    E o sono sempre cortado
    Pelo arranco de um finado,
    E o baque de um corpo ao mar... 
    Ontem plena liberdade,
    A vontade por poder...
    Hoje... cúm'lo de maldade,
    Nem são livres p'ra morrer. .
    Prende-os a mesma corrente
    — Férrea, lúgubre serpente —
    Nas roscas da escravidão.
    E assim zombando da morte,
    Dança a lúgubre coorte
    Ao som do açoute... Irrisão!... 
    Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus,
    Se eu deliro... ou se é verdade
    Tanto horror perante os céus?!...
    Ó mar, por que não apagas
    Co'a esponja de tuas vagas
    Do teu manto este borrão?
    Astros! noites! tempestades!
    Rolai das imensidades!
    Varrei os mares, tufão! ...
     
    VI
         
    Existe um povo que a bandeira empresta
    P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
    E deixa-a transformar-se nessa festa
    Em manto impuro de bacante fria!...
    Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
    Que impudente na gávea tripudia?
    Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
    Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
    Auriverde pendão de minha terra,
    Que a brisa do Brasil beija e balança,
    Estandarte que a luz do sol encerra
    E as promessas divinas da esperança...
    Tu que, da liberdade após a guerra,
    Foste hasteado dos heróis na lança
    Antes te houvessem roto na batalha,
    Que servires a um povo de mortalha!... 
    Fatalidade atroz que a mente esmaga!
    Extingue nesta hora o brigue imundo
    O trilho que Colombo abriu nas vagas,
    Como um íris no pélago profundo!
    Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
    Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
    Andrada! arranca esse pendão dos ares!
    Colombo! fecha a porta dos teus mares!